sábado, agosto 23, 2008

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Memórias do Lumege
E a história que vos queria
contar é a seguinte...

Texto de Delay
(Dedicado a seu primo, o Sr. Costa, que já completou cem anos)


Um dia, esta menininha viveu os mais lindos dias de sua vida... de sua infância... numa terrinha lá nos fins de África... uma terrinha que tinha por nome Lumeje, em Angola... terra linda, pequenininha, vermelha de chão, verde de matos e jardins, coberta por céu azul, que se transformava ao final do dia em cores de fogo, quente, lindo, de um pôr do sol mágico... anoitecia banhada por reflexos de uma lua quase bandida, que me embalava no meu nanar de criança... e me enfeitiçava embrenhando-me em sonhos... e em sonhos reais acordava...

acordava entre essências de flores, essências de croeira, montinhos de pedacinhos brancos ressequidos, que pareciam montes de neve vistos ao longe... acordava com o apitar do camacove que ressoava lá bem longe... e o mala que ressoava bem juntinho de mim... de meus pensamentos de criança... voando na minha imaginação no soar do apito e no embalar do comboio... que adorava... olhar... ver chegar e partir... lá naquela estação de tantos sonhos descidos e outros tantos partidos... idos... jamais por mim esquecidos...

Fui feliz a cada despertar... fui feliz a cada caminhar... fui feliz a cada embalo de baloiço em seus jardins, lindos por certo... fui feliz em cada passear com minhas primas... fui feliz em cada miminho recebido de um Padre que não esqueço de seu nome (Estêvão) por certo meu vizinho lá...Fui feliz, e principalmente no colinho de um Primo muito especial... que não esquecerei jamais... seus mimos, sua preocupação, suas brincadeiras... o Pexão (o nome por mim utilizado para carne, peixe) que ele nas suas mercearias dava para a Laizinha cozinhar nos seus tachinhos... Não esqueço quando ele me dizia que eu tinha um pau nas pernas... a brincar e para me irritar... não esqueço quando ele fazia que me arrancava o nariz e me punha à procura dele... não me esqueço... não me esqueço... tanta coisa...detalhes que me marcaram... e que recordo com tanta saudade... não me esqueço... não me esqueço...


Desta pessoa que para mim, foi como o meu pai naquela etapa da minha vida... Mas também nunca lho disse... e por isso estou aqui, e feliz por lhe fazer esta pequenina homenagem... a este senhor que vim descobrir que aqui se falava dele...
Meu primo Costa... há muito que lhe quis dizer tudo isto, mas distanciámo-nos e a vida por vezes tira-nos as chances de dizermos o que nos vai na alma... ou calamos porque pensamos que não é necessário que a outra pessoa saiba o que nos vai na alma...


Mas outras vezes, creio que é os jogos, que o tempo nos prepara...
Tudo tem o seu tempo certo, e acho que este foi o escolhido pelo Universo para eu dizer o quanto foi importante nessa etapa da minha vida... foi tão importante que e passados 45 anos lembro cada detalhe, cada gesto, cada carícia, cada palavra, cada sorriso... que tanto me aconchegaram... Obrigada por tanto que me deu...

Contudo não vou aqui esquecer de falar na minha prima Nini, sua esposa, nem poderia, já que a prima Nini foi sempre o sorriso aconchegante para todos os que recebia em sua casa... e para mim, e desculpem todas as outras primas, foi o meu afago bom, porque lembro como me afagava com tanto carinho...
Que lindos 100 anos de vida, Primo Costa... 100 anos de sabedoria... e mais que tudo 100 anos de carinho tão doces, distribuídos a todos os que têm a felicidade de ao seu lado estar...



Lembra-se de mim?
Fico à espera de uma resposta, pois sei que alguém a irá ler a si...
Esta é parte da história de uma menina que, apenas com semanitas de idade, foi para o Lumeje e lá viveu feliz até os seus sete anitos de vida... e que hoje em sonhos revive cada detalhe daquela cidadezinha como se por lá deambulasse pela calada da noite mas com coloridos de dia...
Mas lembro de muito mais coisas e de muitas mais pessoas que logo falarei delas noutra histórinha...
Beijinhos de ternura especialmente para si e prima Nini... e beijos a todos os outros primaços(as)


Lay

(ou Lay-Lay... não é, primo Costa?)