sexta-feira, maio 19, 2006

A nossa partida foi notícia n'O Século
Quando, a 12 de Julho, nos preparávamos para partir oceano adentro, a bordo do paquete Vera Cruz rumo a Angola, o fotógrafo do jornal O Século passava por lá e fazia uma foto do momento, que acabaria por saír na edição do dia seguinte.
Provavelmente, não terá sido ingénuo o título do texto da foto-legenda, tanto mais que O Século era um jornal crítico do regime (dentro do possível, é claro). O dia estava quente, mas o jornalista presumivelmente referia-se a outro "calor" que havia por cá - e pelos trópicos. O ambiente aquecia, porque Salazar caíra da cadeira alguns meses antes e, com ele, caíra igualmente alguma frigidez do regime...

Voltaremos ao assunto.

A imagem foi pesquisada por Fernando Hipólito na hemeroteca da Câmara Municipal de Lisboa.

2 comentários:

manu disse...

manumarita sauda-vos.

filobit@gmail.com disse...

Estes embarques eram momentos dramáticos. Quando chegou a minha vez ano e meio mais tarde, depois de uma despedida de Lisboa à noite, foi tempo de ir pôr as malas no camarote e voltar para a convivência no cais, onde o ambiente até era descontraido. Chegou a hora, e começámos a formar para a entrada no navio. O meu batalhão seria o primeiro a entrar, à minha frente o major de operações, depois o capitão cmdt da CCS, a seguir eu, como oficial mais antigo da CCS, fez-se silêncio no cais...ao som do toque de caixa o major dá ordem ao batalhão para avançar, o capitão repete para a companhia, eu dou ordem ao pelotão, que se pôe em marcha, então o silêncio transforma-se em gritos de desespero, os familiares gritavam pelos filhos, pelos irmãos, criou-se um ambiente de drama. De repente senti que todos os olhares estavam fixados em mim e pensei como iria representar aquela cena até ao fim, pôr uma cara alegre, tentando aliviar a tensão,poderia ser negativo, o meu filho vai com um pateta alegre irresponsável... pôr uma cara triste seria agravar ainda mais a situação, tentei manter a calma e segui com passo certo até dentro do navio, onde confesso me senti aliviado. Foi um dos momentos mais dramáticos da minha vida. Mais tarde já na amurada do Infante D. Henrique continuava no cais o desespero da multidão, fiz um comentário para o lado - não pensei que isto fosse assim, todo este drama...e responderam-me: - já reparaste que alguns deste homens que estão a embarcar não voltarão? ...

...ninguém bateu palmas, sempre fui um mau actor...

Armando Monteiro